Explorar Tóquio sem Explorar a Carteira

Itinerário para um dia na grande metrópole

Por Ines Matos   29/09/2018

Chegar a Tóquio é, para muitos, nada menos que a concretização de um sonho. Talvez alguns nem se atrevam a realizar esse sonho porque se assustam com os preços praticados no Japão. Sim, com efeito pode gastar-se facilmente o que se tem e o que não se tem por estas bandas... mas não tem obrigatoriamente de ser assim, especialmente se está disposto a fazer concessões.

Neste artigo vou dar-lhe recomendações para desfrutar de um dia em Tóquio tendo como critério manter os gastos no mínimo. Contudo, há uma coisa que não se compromete: a autenticidade da experiência!

Primeiro, a chegada

Se acabou de chegar a Tóquio é provável que o tenha feito através do aeroporto de Narita (a norte) ou o de Haneda (a sul). Vamos partir do princípio que tem apenas uma bagagem pequena (que pode transportar consigo) ou então que já mandou a sua bagagem pesada para o alojamento através do serviço Takkyubin. Ainda antes de sair do aeroporto, recomendo que visite o stand de uma das companhias de telecomunicações e conectividade aí representadas para alugar um dispositivo "Pocket Wi-Fi", pois vai precisar de estar com internet para ir usando o mapa/GPS ao longo dos próximos dois dias. Depois, apanhe o comboio e vá para a Tokyo Eki - a estação central de Tóquio.

Itinerário a pé

Começamos o itinerário na Estação de Tóquio, e para isso é preciso sair do edifício para o admirar a partir de fora. Esta impressionante estação, que contudo tem um aspecto curiosamente "europeu" na sua fachada principal, teve um início conturbado. A ideia de fazer uma "estação central" emergiu logo em 1896, mas o plano ficou congelado por causa da guerra entre o Japão e a Rússia. Só em 1908 é que se iniciou a construção. O arquitecto Tatsuno Kingo escolheu um design com fachada em tijolo e algo evocativo dos edifícios franceses, holandeses e centro-europeus em geral, claramente imaginando Tóquio como a capital de uma nova nação "civilizadora" da Ásia, à imagem e semelhança da Europa colonial daquela era. Para além disso, o edifício ficou localizado mesmo às portas do jardim do Palácio Imperial. A estação foi um sucesso, tanto em termos de funcionalidade como no seu papel de novo centro urbano. Contudo, o edifício sofreu danos muito consideráveis na Segunda Guerra Mundial, tendo sido directamente bombardeado. A reconstrução, em várias etapas e não sem polémicas, veio a manter essencialmente as mesmas características estéticas do edifício original. Em anos mais recentes, na viragem do milénio, sofreu um restauro detalhado, e desde então foi até "reinaugurada" para assinalar os seus mais de 100 anos de idade.

A partir da saída JR Yaesu Central Exit e passando ao lado da bilheteira Midori no Madoguchi, prosseguimos para Noroeste (Sotobori Dori), atravessamos a Eitai Dori (por onde passa a linha de metro Tozai), viramos à direita antes de chegar ao rio e caminhamos três quarteirões. Desse modo, chegamos ao início da Nippon Bashi, que vai aparecer no lado esquerdo. Apesar de a ponte (bashi significa ponte) estar agora situada por baixo de uma via rápida, fazendo desta secção urbana pouco mais do que um viaduto, a verdade é que a Nippon Bashi é nada mais nada menos que o centro absoluto de Tóquio. Com efeito, é a partir de uma placa no centro da ponte que se medem todas as distâncias para e a partir de Tóquio. Quando a cidade ainda tinha o nome de Edo, esta ponte era o início das rotas fundamentais para o resto do território. Aqui começavam as duas rotas para Quioto, uma pela costa (Tokaido) e outra pelo interior (Nakasendo), os caminhos para Yamanashi e para Fukushima, entre outros. A ponte era o coração da actividade mercantil, já que as mercadorias eram descarregadas ali próximo, no porto do rio, e depois carregadas às costas para entrar na urbe. Por isso, desde 1603, a Nippon Bashi definiu o destino comercial desta área. As casas empresariais que se estabeleceram nas imediações deram lugar a empresas modernas, bancos e outros ramos do capitalismo, e Nippon Bashi é hoje o nome do bairro no qual se reconhece o centro financeiro do país. Fica o aviso: não se arrisque até ao meio da rua por causa do trânsito, no início da ponte há uma réplica da placa a partir da qual se medem as direcções, e fica a escassos metros da original. Ao percorrer a ponte na direcção sul-norte, passamos à saída pelo monumento de comemoração do mercado de peixe. Pode parecer-lhe inusitado mas o mercado de peixe que passou para Tsukiji foi primeiro neste lugar, logo após descer a Nippon Bashi (a primeira ponte era de madeira, e em forma de arco, por isso "descia-se" ao chegar ao fim da ponte/entrar em Tóquio). Permita-se um pequeno à parte sobre o mercado de peixe de Tsukiji, é que mesmo este eventualmente também terá de passar para outro lugar, já que as obras para os Jogos Olímpicos de 2020 vão alterar completamente a zona do Tsukiji. Assim, neste humilde monumento à saída da Nippon Bashi, pode ter a certeza que foi onde começaram verdadeiramente os leilões que muitos anos depois tornariam Tsukiji famoso.

Logo a seguir à ponte, vamos virar à esquerda, e depois seguir sempre em frente durante vinte minutos. Esta rota passa a norte da Estação central de Tóquio e leva-nos directamente ao Ote-Mon, o portão para os Jardins Orientais do Palácio Imperial. Com efeito, ao passar a pequena ponte que antecede a passagem por baixo do Portão, estamos de facto a passar pelo fosso de um castelo. O castelo já não existe mas este lugar foi a fortaleza do Shogun Tokugawa até 1867, e depois disso foi a residência do Imperador entre 1868 e 1888. O espaço nunca recebeu outra construção para servir de memorial para todos os japoneses, e as terras ainda são propriedade da Família Imperial. Contudo, a parte oriental do parque é aberta ao público e de acesso livre. Muralhas, fossos, e várias estruturas defensivas ainda podem ver-se ali, bem como um agradável jardim, onde na época da floração das cerejeiras muitos "Tokyoitas" fazem piqueniques.

Saindo dos Jardins do Palácio Imperial pelo Portão Hirakawa, seguimos para norte pela Hakusan Dori. A dois quarteirões de distância encontramos um monumento curioso: uma mão gigante a apanhar uma bola. Trata-se do monumento à introdução do basebol no Japão, e de modo indirecto presta homenagem a Horace Wilson, que em 1871 ensinou basebol aos seus alunos quando estava a ocupar a posição de professor numa escola que se localizava precisamente aqui. Com efeito, o basebol tornou-se o desporto nacional do Japão, com presença obrigatória no currículo desportivo entre os 12 e os 18 anos. Até muito recentemente o basebol monopolizava a socialização desportiva, mesmo nos adultos, um pouco como o futebol em Portugal.

Viramos para Este e seguimos a pé, durante aproximadamente 10 minutos, passamos pela estação Awajichou e vamos apanhar a Chuo Dori para passar a ponte na direcção de Akihabara. Até 1872 existia neste lugar a ponte Shimaibashi, tendo sido demolida e a sua pedra reutilizada para construir uma ponte com duplo arco que foi chamada de "Mansai". Contudo, a população de Tóquio começou a chamar-lhe "mangeshima". O facto de esta zona ter muitas pontes e de esta ter um atraente duplo arco em pedra tornou-a popular, pois o seu reflexo na água do canal fazia com que parecesse uns óculos. O terramoto de 1923 afectou-a bastante, mas sofreu renovação e manteve-se uma das vias principais da cidade, já que Chuo Dori liga directamente a Ginza. Depois de passar a ponte, entramos no bairro de Akihabara, conhecido por ser a "cidade da electrónica".

Akihabara - "Akiba" para os amigos - é a meca dos videojogos e de todo o imaginário que os acompanha, o que no caso do Japão significa também uma relação estreita com o universo anime. Para quem recorda com nostalgia as horas passadas na companhia da SEGA, este bairro pode ser uma visita interessante, com ou sem compras pelo caminho. Continuamos o nosso percurso na direcção norte, sempre mais ou menos ao longo da linha de comboio, de modo a passarmos pela estação de Okachimachi. A parti daí, e na direcção de Ueno, começa a zona de mercado Ameyoko. O mercado urbano é uma atracção em si mesmo, já que se trata de um conjunto muito compacto e diversificado de bancas ao longo das ruas, literalmente entaladas entre a linha de comboio (à direita) e o lago do Parque de Ueno (à esquerda). No mercado de Ameyoko pode encontrar desde malas de viagem que são uma pechincha a artesanato que dará um excelente souvenir. Também é um sítio excelente para ir provando a "street food" de Tóquio. Pequenos petiscos que são grelhados ou fritos mesmo ali à sua frente e que lhe reconfortam o estômago. Compre também comida para levar, já que a seguir vamos para o Parque Ueno e poderemos sentar-nos confortavelmente à sombra das árvores para um almoço relaxado.

Depois desde intervalo para retemperar forças seguimos na direcção Este a partir da Estação de Ueno, indo portanto na direcção de Asakusa. Após 10 minutos de caminhada verá, do seu lado esquerdo, o início da Kappabashi Dogu Gai, uma zona da cidade (na verdade uma rua e algumas das suas transversais) dedicada à revenda de artigos ligados à indústria da restauração. A Kappabashi ficou famosa sobretudo por ser o local de fabrico e venda das réplicas de comida em plástico, um tipo de artigo no qual o Japão é excelente, e líder mundial desde os anos 70. Já reparou que alguns restaurantes têm, na entrada, réplicas exactas dos pratos do seu menu? Pois bem, é aqui que as fazem. Em Kappabashi também pode ver facas incríveis - sobretudo para os chefs de sushi - e cerâmica da melhor, no fundo, tudo o que tem a ver com a restauração.

Continue para Este e chegaremos a Asakusa. Atravessando a linha do comboio, passamos para o outro lado da estação de Asakusa. Agora estamos mesmo a chegar ao Senso-ji, um dos templos mais famosos da cidade e local onde pode ver o impressionante portão Hozomon, que tanto sucesso faz em filmes, anúncios e fotografias de férias. O Senso-ji é um templo budista dedicado a Kannon, considerada a divindade da misericórdia. O primeiro templo que aqui existiu foi construído no século VII depois de ter sido encontrada uma estátua de Kannon no rio Sumida (que está agora a uns escassos 250 metros do recinto, a Este). A popularidade do templo hoje em dia, para além da sua evidente beleza, reside no facto de ser o templo mais antigo da cidade que sobreviveu em uso ininterrupto. Para isso talvez tenha contribuído o facto de existir uma rua comercial muito frequentada mesmo em frente ao recinto do templo, a Nakamise, que é aliás um excelente sítio para pequenas compras e mais um ou dois petiscos.

Não se esqueça de passar pelo pagode de cinco andares (ainda dentro do jardim) e também pelo Benten-do (a caminho do portão sul), e depois seguimos para o rio Sumida. Este rio, que se chamava "Ara Kawa" antes da era Meiji, moldou em grande parte o desenvolvimento de Tóquio e a vida social dos seus habitantes. Foi tema de canções, poemas, filmes e muitas outras obras de arte. Vamos atravessar o rio para o Parque Sumida. Logo na ponte já poderemos apreciar a silhueta da Skytree, a nova Torre de Tóquio, que com os seus mais de 630 metros de altura serve de torre para a radiodifusão e também de plataforma de observação da cidade.

Se desejar subir à Skytree prepare-se para desembolsar cerca de 10 euros, mas recomendamos que deixe as vistas da cidade para mais tarde, já que o nosso percurso continua até ao Museu Edo-Tokyo. A caminhada a partir da Skytree demora cerca de 30 minutos na direcção Sudoeste (o Museu fica junto a Ryogoku). Tal como o nome indica, este Museu mostra-lhe como era a cidade no seu período "Edo" e como se foi transformando até chegar à Tóquio dos nossos dias. O bilhete custa menos de 5 euros e dá também acesso às visitas guiadas em inglês, existindo várias ao longo do dia. Se ainda tiver tempo recomendamos uma visita ao Museu Hokusai (dedicado ao famoso pintor que, entre outras obras, criou a "Onda"), pois este museu fica ali mesmo ao lado e também tem uma entrada muito acessível: pouco mais de 3 euros!

Depois desta dose de cultura, apanhe o comboio na estação de Ryogoku e vá até Shinjuku. A 5 minutos da estação, saindo pelo lado Nordeste, está a Golden Gai, zona icónica de Tóquio com as suas tasquinhas pequenas e inconfundível ambiente, e onde pode tomar uma bebida e uns petiscos para relaxar das canseiras do dia.

Sendo Shinjuku uma mega-estação que congrega vários tipos de transportes diferentes e também várias áreas comerciais, não faltam opções de alojamento nas proximidades. Desde cápsulas a quartos de luxo, há para todos os gostos. Recomendamos as guest-houses mais modestas ou os business-hotels das cadeias usadas pelas empresas, como por exemplo a cadeia Toyoko-Inn. Pode fazer reserva prévia pelo booking, mas sites como o Japanican, Agoda ou Rakuten (para além dos sites dos próprios hotéis) dão-lhe mais opções no Japão. Não se esqueça das opções da Airbnb, que apesar de ser um mercado mais pequeno, ultimamente continua a ter excelentes condições.

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Ines Matos

Ines Matos @Ines Matos

Portuguese free spirit with an acute passion towards Japan. Long time japanese language terrible student. Part-time photographer with incredible luck in finding people willing to exhibit my Japan-themed pictures. Owner of a piece of paper that states I'm an art-historian, post-graduate on namban-art and Portugal-Japan heritage and some other aparently boring stuff. But I do like art and culture... it alows me to know people and places deeply and experience the limits of perception and belief. My proudest achievement is the non-profitable project I've created and have run for some years, connecting Portugal and Japan with news, activities aiming students and teachers, workshops, conferences, etc.  Non-fictional books about Japan: "Um longo Verão no Japão" (A long Summer in Japan), "Geminação Cascais - Atami: história de uma amizade" (Twin cities Cascais and Atami: the story of a friendship), "Património de Cristianismo no Japão" (Intangible Cultural Heritage of Christianity in Japan), all of them in portuguese, two of them are a collection of essays atached to photography exhibitions. E-book free on www.clubotaku.com: "Japão: guia de sobrevivência" (Survivor Guide to Japan), also in portuguese. Several lectures and papers in english can be provided upon request. For video-conferences/on-line learning watch my youtube channel. These are the videos in english: 1- The velvet cape; 2 - Boats and bodies; 3 - Need a flag; 4 - southern point of view; 5 - Tales from within and beyond: the case of the Tanegashima gun - part I and II. https://www.youtube.com/channel/UCRQr5YwNF-VXhr6Gkycl-1A/videos?view_as=public soft spot in Japan: Kyushu and around...

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