Campos de Arroz como Nunca os Viu!

A arte de desenhar com plantas vivas

Por Ines Matos   05/01/2019

Se visitar o Japão entre meados de Junho e finais de Agosto, considere uma viagem ao norte da ilha de Honshu, mais exactamente à localidade de Inakadate, na prefeitura de Aomori. A viagem a partir de Tóquio demora pelo menos cinco horas, e isto contando com o uso do shinkansen, mas garanto-lhe que vale a pena!

No pequeno lugar de Inakadate, uma simples vila rural rodeada de campo agrícola, tem lugar o festival de "land art" (arte na paisagem) mais querido do Japão: o Inakadate Tambo Art. Se o Japão é todo arroz, este é seguramente o festival que representa a união entre história, paisagem, economia agrícola, design e muita mas muita paciência. Vários sectores da população estão envolvidos neste festival, desde as crianças do jardim-escola aos idosos que habitualmente trabalham nos arrozais, passando por engenheiros preocupados em planear o design ao nível da plantação de cada semente, e variados organismos locais que supervisionam o atendimento aos visitantes.

No início dos anos 90, a região de Minamitsugaru da Prefeitura de Aomori vivia tempos difíceis, pois a economia japonesa tinha sofrido um abrupto declínio, a população estava envelhecida e muitos sem trabalho, os mais jovens corriam para as cidades em busca de alguma oportunidade de sobrevivência e os campos de arroz eram tudo o que lhes restava. Assim, em 1993 fez-se o primeiro evento de "arte na paisagem" usando o potencial dos campos de arroz. Tirando partido de experiências bem sucedidas em anos anteriores, neste evento fizeram pela primeira vez uma composição de grande dimensão e promoveram a vila de Inakadate de modo a ligar o lugar à experiência de apreciação destes panoramas inusitados. O design era ainda relativamente simples (escolheram um desenho que representava o Monte Iwaki) mas já usavam a técnica essencial que veio a pôr Inakadate definitivamente no mapa dos eventos culturais sazonais do Japão. Esta técnica consiste na plantação de diferentes espécies de arroz, diferenciadas na sua tonalidade, de tal modo que à distância se possa ter a impressão de uma tela pintada. Para que o resultado seja realista a partir de um posto de observação pré-determinado é necessário ter em conta a distorção da imagem na paisagem e plantar cada pé de arroz no ponto exacto, de acordo com um modelo cuidadosamente calculado. Ao perto parece apenas um campo de arroz no qual as plantas têm diferentes tonalidades, mas de um ponto fixo de observação a magia acontece e o cenário ganha vida!

Foi preciso esperar por avanços na tecnologia de selecção de sementes para obter variedades de plantas de arroz com tonalidades que vão desde o amarelo vivo ao roxo forte, passando pelo laranja e pelo castanho avermelhado, e assim diversificar ainda mais as possibilidades de design (neste momento têm disponíveis 11 cores). As plantas vão-se desenvolvendo ao longo do mês de Junho e estão já prontas para apreciação no início de Julho, mas é durante a segunda quinzena de Julho e o mês de Agosto que há mais visitantes, pois é também nesse período que os desenhos estão mais bonitos e coloridos. A descoloração na direcção do tom amarelo-torrado e castanho acontece no final do Verão, marcando a aproximação da colheita.

Desde 2015 a Prefeitura de Aomori tem investido cada vez mais na promoção do Festival de Inakadate, nomeadamente através da criação de um website através do qual é possível observar em directo os campos de arroz, acompanhando a evolução do desenho na paisagem, com recurso a câmaras fixas e sem sequer ter de ir ao local! Mas, claro, nada iguala a experiência real de visitar esta encantadora vila e peregrinar entre as duas plataformas de observação.

Se quiser ver as gravações das câmaras que foram colocadas a transmitir em directo no festival do ano passado (2018) pode seguir para esta página: http://www.inakadate-tanboart.net/livecam/01-2018.html

Para chegar ao local, apanhe o shinkansen da linha Tohoku-Hokkaido e saia em Shin-Aomori. Apanhe o comboio da linha Ou até Hirosaki e mude para a linha Konan-Tetsudo de modo a ir até Inakadate. A estação de Inakadate é uma casinha pequena, um mero apeadeiro. Em Inakadate existem duas plataformas de observação para a "Tambo Art". A plataforma "Tambo Art Kaijo 2" é a que fica mais próxima da estação de comboio. Esta plataforma número dois fica justaposta ao observatório de Yayoinosato, a uns 5 ou 7 minutos a pé do local onde desceu do comboio. Durante o festival existe um serviço de shuttle entre esta plataforma e a dita "Tambo Art Kaijo 1", que é no centro da vila, mas se quiser fazer o caminho a pé também não gasta mais de meia hora com isso. No centro da vila existe a Village Hall e deverá passar por lá antes ou depois do "Kaijo 1", pois é o local onde se expõem as fotos dos panoramas dos anos anteriores. O acesso a cada uma das plataformas é aproximadamente dois euros e meio por pessoa, e menos de 80 cêntimos para crianças até 12 anos. Apesar de a arte dos campos de arroz estar sempre ali ao ar livre para ser apreciada, o acesso às plataformas oficiais de observação é limitado no horário, e encerra às cinco e meia da tarde. No entanto estão abertas todos os dias da semana.

Já que Inakadate é uma povoação pequena, terá mais opções de alojamento em Hirosaki, mesmo ali ao lado. Mas se for por alturas do Tambo Art reserve com antecedência!

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Ines Matos

Ines Matos @ines.matos

Portuguese free spirit with an acute passion towards Japan. Long time japanese language terrible student. Part-time photographer with incredible luck in finding people willing to exhibit my Japan-themed pictures. Owner of a piece of paper that states I'm an art-historian, post-graduate on namban-art and Portugal-Japan heritage and some other aparently boring stuff. But I do like art and culture... it alows me to know people and places deeply and experience the limits of perception and belief. My proudest achievement is the non-profitable project I've created and have run for some years, connecting Portugal and Japan with news, activities aiming students and teachers, workshops, conferences, etc.  Non-fictional books about Japan: "Um longo Verão no Japão" (A long Summer in Japan), "Geminação Cascais - Atami: história de uma amizade" (Twin cities Cascais and Atami: the story of a friendship), "Património de Cristianismo no Japão" (Intangible Cultural Heritage of Christianity in Japan), all of them in portuguese, two of them are a collection of essays atached to photography exhibitions. E-book free on www.clubotaku.com: "Japão: guia de sobrevivência" (Survivor Guide to Japan), also in portuguese. Several lectures and papers in english can be provided upon request. For video-conferences/on-line learning watch my youtube channel. These are the videos in english: 1- The velvet cape; 2 - Boats and bodies; 3 - Need a flag; 4 - southern point of view; 5 - Tales from within and beyond: the case of the Tanegashima gun - part I and II. https://www.youtube.com/channel/UCRQr5YwNF-VXhr6Gkycl-1A/videos?view_as=public soft spot in Japan: Kyushu and around...

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