Hasami: Tranquilidade e a Arte da Cerâmica

Pequena vila longe do bulício dos turistas

Por Ines Matos   29/09/2017

No início do período Edo (século XVII) as pequenas vilas desta região, entaladas entre as montanhas, começaram a desenvolver a produção da cerâmica a uma escala nunca antes vista no Japão. Foi assim que nasceram cidades como por exemplo Arita, a qual chegou a ter mais de mil famílias dedicadas à produção da célebre louça! Mas Hasami, que fica a menos de 10 km a sul de Arita, nunca cresceu tanto e manteve as suas características de vila nas montanhas. Os turistas, embora aqui passem, não entopem as ruas que serpenteiam ao lado dos ribeiros, nem perturbam a calma das pequenas fábricas que ainda aqui operam. Visitar Hasami tem o sabor de uma descoberta da qual se quer guardar segredo, mas ao mesmo tempo que é boa demais para não se gabar! Para além disso terá maravilhosas fotografias da natureza, da louça, e da comida, e possivelmente as melhores lembranças de sempre.

A ter em conta

Os poucos turistas que visitam Hasami são japoneses, por isso não existem serviços de guia em inglês ou noutras línguas, mas poderá pedir a ajuda da Associação de guias de Arita (este tem serviços em inglês), já que a deslocação é muito rápida e barata entre as duas localidades.

Este destino é muito adequado a visitas com crianças e é perfeito para toda a família, desde que não existam elementos com dificuldade de locomoção. Incluí história, cultura, arte, natureza, caminhada e repouso. Todos os locais a visitar são de entrada livre.

Um pedaço da história do Japão

Em Hasami produziu-se um tipo de cerâmica para consumo no mercado interno japonês, enquanto que a produção de Arita era mais exuberante e destinava-se sobretudo ao mercado de exportação - indo primeiro para Imari e depois para Nagasaki, e daí para a Indonésia, a Holanda, e o resto do mundo - e por isso os tipos mais característicos de Hasami são mais ao gosto oriental: a porcelana celadon com o seu tom verde-acinzentado uniforme e brilhante, e as decorações de azul cobalto sobre fundo branco, com amplos espaços vazios que dão às peças uma acrescida luminosidade. O chá dos senhores feudais (daimyo) era servido em taças sofisticadas de Hasami, mas o arroz simplesmente cozido do agricultor também era comido em exemplares mais modestos desta louça. A sua presença na história do quotidiano japonês foi fundamental.

Como se deslocar

Hasami fica muito perto de Arita mas não está ligada a esta por transportes públicos. Aliás, Hasami não tem serviço de autocarro nem de comboio, devido à sua localização nas montanhas. Por isso apenas pode aceder de carro (alugado por exemplo) ou de táxi. A partir da estação de comboio de Arita, caminhe 20 metros na avenida e encontrará o centro de recepção dos visitantes e turistas (grande portão cor-de-laranja na forma de um contentor de carga reutilizado). Aí poderá adquirir um passe de táxi que é válido para todo o dia e custa 1000 ienes (aproximadamente 9 euros). Com este passe pode ir parando em vários lugares específicos de Hasami e regressar a Arita no final do dia. Se usar o táxi para ir para Hasami sem este passe, a viagem irá custar-lhe (só ida) aproximadamente 1500 ienes, mas também pode combinar antecipadamente com o condutor um preço para a ida e volta, marcando hora de regresso. Os condutores de táxi não são fluentes em inglês mas têm muita simpatia e boa vontade para procurar perceber os seus desejos por escrito (nome do destino, setas, horas e preços).

O que esperar

Hasami tem dois lugares, numa geografia determinada pelas montanhas e o reduzido espaço entre elas, e por isso tem dois núcleos distintos. O lugar mais elevado é o mais delicado e encantador, com ribeiros ao lado das casas, pontes pequenas com decoração em cerâmica nos seus muros arredondados, grandes jarrões à beira das caminhos, alguns cafés, churrasqueiras, tascas e bares. Tem também um posto dos correios, muito conveniente para enviar um postal a fazer inveja aos amigos. A caminhada é agradável e o ar muito puro e fresco, sobretudo na sombra do arvoredo.

Há vários fornos de cerâmica em funcionamento, todos mantidos nas suas respetivas famílias ao longo de 400 anos! A maior parte destas pequenas empresas familiares apenas aceita visitas de empresários ou criativos do sector da cerâmica, mas algumas delas estão a modernizar-se no sentido de oferecerem experiências imersivas, tais como workshops, visitas guiadas, ou eventos pontuais de venda direta ao público. Se visitar durante a semana da grande feira na "Golden Week" (primeira semana de Maio) terá ainda mais atividades disponíveis.

Para se deslocar para o outro lugar da povoação pode usar táxi ou caminhar 30 minutos, sendo uma parte desse percurso à beira da estrada (e dos campos de arroz com os seus grãos preciosos), e outra parte numa estrada bem pavimentada e larga mas dentro da floresta. Começando na parte alta é fácil deslocar-se a pé, mesmo sendo uma caminhada longa, pois o percurso é suavemente a descer. Aproveite para encher os pulmões de ar puro, e para relaxar do stress da cidade! Mas, não se esqueça, não pare para fazer piquenique no arvoredo, pois poderá ter visitas desagradáveis dos corvos se lhes cheirar a comida.

O que fazer

A zona mais plana e baixa é também a maior e com mais serviços. A maior parte das lojas estão nesta zona, bem como os restaurantes, os santuários, os parques e os museus. Um dos pontos mais interessantes é o ecomuseu dos fornos, o qual apresenta réplicas das várias tipologias de fornos cerâmicos usados ao longo da história no Japão e em particular nesta região. A sabedoria da China e da Coreia, por via de sucessivas vagas de emigração, contribuiu significativamente para o aperfeiçoamento técnico da produção de Hasami. O ecomuseu localiza-se no extremo este de um parque verde e tem a designação em japonês de Yakimono (literalmente "coisas que vão a queimar"). Se gosta de visitar santuários xintoístas, pode ir a Iseki ou a Tozan, os quais - tal como o parque acima indicado - são todos de entrada livre.

Perto do parque de Yakimono existe um edifício governamental (identificado como sendo da Câmara Municipal no GPS) que tem, para além de WC limpos e gratuitos, uma grande loja de lembranças com ampla escolha de artesanato local, e um museu muito interessante no piso superior. Todos estes serviços são de entrada livre. O museu apresenta não só a história da primeira cerâmica no Japão (período Jomon) como todas as modernizações preconizadas pela via da China e Coreia, bem como o desenvolvimento motivado pelo comércio internacional e o impacto da indústria cerâmica japonesa no gosto dos europeus. Exemplares extraordinários também podem ser vistos, os quais foram escolhidos para exposição pela sua dimensão ou extrema dificuldade de execução técnica. Um recanto que reproduz o atelier artesanal de um pintor de pratos e taças irá surpreendê-lo! Aqui, ao carregar num botão, um robô humanóide perfeito ganha vida e narra (em japonês) a sua perspetiva como mestre desta arte. Uma mostra dos grandes mestres ceramistas vivos e emergentes também pode ser vista numa sala anexa (os vencedores dos prémios do sector). No piso de entrada pode esperar pelo táxi do serviço pré-pago (o dos 1000 ienes) ou pedir um com a ajuda do recepcionista.

Escrito por Ines Matos
Membro da JapanTravel

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