Exposição "De Portugal para Kyushu" - Character Design, Parte 2

Paula Walker apresenta-nos vários detalhes do design das personagens

Por Orlando Ferreira   03/02/2019

Paula Walker, a artista responsável pelo Character Design da exposição "De Portugal para Kyushu", apresenta-nos vários detalhes do design das personagens.

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Recebidas as primeiras indicações para as personagens que deveria criar, comecei o processo de pesquisa. Deveria preparar um total de 15 ilustrações — do conceito à arte final —, onde figurariam os narradores: um rapaz e uma rapariga pré-adolescentes, que conduziriam os visitantes numa viagem pelos temas apresentados ao longo dos painéis da exposição.

Ainda nesta fase, percebi que seria necessária uma terceira personagem e fiz a proposta: precisávamos de uma mascote! Para mim, isso era claro, por dois motivos: por ser uma figura predominante em toda a cultura pop japonesa e por permitir apresentar acções e expressões mais exageradas e divertidas, que não ficariam bem se as atribuísse aos narradores — sob risco de lhes retirar a ligação com o público juvenil.

Um dos desafios mais interessantes deste trabalho, foi o de ter, como público-alvo, crianças e adolescentes de culturas tão diferentes, como a portuguesa e a japonesa.

Abracei o desafio com todo o gosto! Primeiramente, estabeleci como objectivo criar algo com interesse para todos, fundindo alguns aspectos da estética pop nipónica com outros da estética ocidental, mas evitando cair num hibridismo que resultasse forçado e estranho.

A minha formação e experiência por caminhos da Arte Ocidental, conjuntamente com os últimos anos, em que me tenho dedicado ao estudo e ensino do desenho Manga e da pintura Sumi-e, cooperaram desde a fase do esboço de cada personagem e do estabelecimento das acções em cada cena, à definição das soluções para o tratamento final das imagens.

A mascote foi a primeira personagem que defini. Neste caso, procurei inspiração nos tanuki japoneses, e decidi desenhá-la fofinha e vivaz, mas com muita classe!

Seguiu-se a rapariga, que deveria apresentar um aspecto nipónico. Confrontei muitas ideias com a consultora e autora dos textos deste projecto, Inês Carvalho Matos, que me orientou por entre uma infinidade de possibilidades. Assim, pesquisei características das meninas e das jovens japonesas contemporâneas, e estudei imagens de fontes, como o Google, Mangas mainstream e algumas personagens de séries, filmes e documentários.

Após explorar várias hipóteses, optei por realçar o seu lado juvenil e caloroso, mantendo-a, contudo, cordial e elegante. As duas tranças que lhe dei nos primeiros estudos, acabaram por desaparecer, para dar lugar a um penteado mais simples e solto, que me pareceu mais adequado à sua personalidade. O mesmo aconteceu a umas florzinhas que faziam parte de um dos estudos do vestido. Na finalização do Design, preferi manter o vestido com cores planas, sem mais ornamentos, para manter o equilíbrio entre as texturas visuais dos desenhos do rapaz e da mascote.

Estabelecer o concept visual do rapaz foi mais difícil. Deveria ter um ar mais pan-asiático, com uma personalidade um pouco mais imatura do que a da rapariga, mas muito cativante. Inicialmente, visualizei-o com um colete acolchoado. Num filme de Anime de um dos meus realizadores contemporâneos favoritos, Mamoru Hosoda, há uma personagem, de que gosto imenso, que usa um. Além disso, também já tinha visto jovens vestidos com tais coletes, que me pareciam ‘super-cool’. Teimei em querer apresentá-lo assim. Mas, após alguns estudos, não estava satisfeita: o look com o colete soava-me inadequado para este narrador e, sobretudo, desajustado das figuras da rapariga e da mascote.

Nas referências de moda para rapazes que recolhera, aparecia com alguma frequência um tipo de calças que eram usadas por rapazes de vários países asiáticos, que eu não tinha considerado como hipótese porque, decidi, “não podiam ficar bem com o colete…”

Com alguma relutância, mas forçando-me a sair deste impasse, decidi explorar esta hipótese e concentrei-me em desenhar uma versão de calças inspiradas nas “hakama”.

Era isto mesmo! Definidas as calças, tornou-se óbvio que o rapaz não usaria um colete, mas sim estas calças soltas e confortáveis. A seguir, foi fácil definir a sweat, a t-shirt e até o tipo de penteado.

Para o estilo das imagens, escolhi algumas características da estética Manga/Anime, como o tipo de expressões faciais ou a separação gráfica entre os estilos das figuras e do fundo (que, na Banda Desenhada e Animação Ocidentais, costuma ser muito mais aproximado).

Ao pensar no público juvenil e nos resultados que procurava atingir, decidi recorrer à ferramenta “pastel” do Art Rage, que me permitiu criar áreas de cores bastante planas e vivas, deixando antever, ora aqui ora ali, de forma mais aparente, a textura do pastel.

Com esta ferramenta, espalhei as manchas de cor como se estivesse a alastrar tinta fluida, pensando-as como formas em si mesmas, independentes das linhas de contorno e evitando tocar nestas. Assim, em vez das linhas pretas, mais típicas neste tipo de imagens, preferi manter o aspecto da grafite nos contornos, para definir cada forma apenas por um leve arame.

Deste modo, também os espaços vazios entre a cor e os contornos permitiram uma reaproximação das formas ao fundo por entre as áreas deixadas transparentes, deixando passar através das personagens os tons dourados dos painéis.

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Orlando Ferreira

Orlando Ferreira @orlando.ferreira

Orlando Ferreira é natural de Alverca do Ribatejo, tendo feito os seus estudos superiores em Lisboa. É casado, pai e gosta de escrever. Desde 1990 é professor de Língua Portuguesa no Externato João Alberto Faria, em Arruda dos Vinhos. Tem implementado programas de intercâmbio escolar e coordenado publicações literárias com foco no Japão. O seu interesse nesta área desenvolveu-se mais a partir de 2007, depois de integrar o Tour Program for Secondary Educators, a convite da Japan Foundation. A oportunidade para conhecer melhor os laços entre os dois países veio ao encontro do seu compromisso pessoal e profissional de promover o conhecimento da língua portuguesa no mundo e o seu gosto pelo intercâmbio internacional entre os seus alunos. É presidente da Associação Rotas da Lusofonia, a qual fundou com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento de iniciativas de índole cultural dos países de expressão portuguesa e nos países com representação do ensino da língua portuguesa e/ou ligação a Portugal. Em 2011, numa visita de estudo a Tóquio para alunos do Clube de Jornalismo da escola onde lecionava, foram surpreendidos pelo Grande Terramoto de 11 de Março. Esse evento marcou-o profundamente e levou à organização de um evento de recolha de donativos e de livros para as crianças da região de Fukushima em colaboração com a ONG Soma Relief 311. Em Julho de 2017, é-lhe atribuída a Condecoração do Ministro dos Negócios Estrangeiros do Japão. Esta condecoração é uma distinção de prestígio concedida a cidadãos estrangeiros que têm contribuído grandemente na promoção do mútuo entendimento e dos laços de amizade entre o Japão e os outros países.

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