Exposição "De Portugal para Kyushu" - Character Design, Parte 3

Paula Walker fala-nos sobre a sua inspiração para a exposição

Por Orlando Ferreira   31/03/2019

Paula Walker, a artista responsável pelo Character Design da exposição "De Portugal para Kyushu", fala-nos sobre a sua inspiração para completar este trabalho.

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Em qualquer ilustração que faça, vejo sempre os adereços como elementos muito importantes. Mesmo se forem poucos ou aparecerem como pequenos detalhes, não importa: preparo-os com cuidado e desfruto daquele mesmo entusiasmo que acontece quando pesquiso e ilustro as personagens.

Logo nos sketches iniciais e na primeira troca de ideias com a Inês Madeira Ferreira (responsável pelo projecto museográfico, design e ilustrações de fundo dos biombos) imaginei todos os elementos que a queria compor, cada mini-cena com os narradores e a contribuição para estabelecer o ambiente em cada uma.

Investi um bom tempo na pesquisa e preparação de cada adereço, para ser representado com veracidade e para que pudesse acrescentar algo de novo e útil ao que já é referido nos textos da exposição.

Para o público português, poderá não ser imediato reconhecer a deliciosa fatia de kasutera (“castela”, referindo-se ao tipo de bolo muito comum no Japão, com origem no nosso pão-de-ló); ou, para o público japonês, identificar a bandeira real portuguesa que se usava no tempo de D. Dinis e o pinhal de Leiria ao qual dei um ar de peças de brinquedos para a mascote ir montando. Mas, precisamente por isso, escolhi elementos assim - tornando-os quase como pistas para a descoberta de cada cultura.

Para ilustrar alguns alimentos, quis referenciar uma das cenas do filme Totoro onde a personagem principal, em gestos repetidos um pouco por toda a parte no Japão, prepara as lancheiras de almoço para si e para a sua irmãzinha. A minha interpretação desse momento quotidiano é uma pequena homenagem àquele que é, talvez, o meu realizador de animação preferido, Hayao Miyazaki, pela forma brilhante como narra visualmente as suas histórias e consegue fazer das acções e gestos mais banais pequenas delícias de movimento e emoção.

Embora não tenha feito propriamente um moodboard, houve algumas imagens que mantive sempre por perto do meu campo de visão. Umas coladas à parede, em frente à mesa onde trabalhava, outras em ficheiros permanentemente abertos num segundo computador, que serviam para me transportar para o ambiente que queria apresentar. Uma, em particular, de dois belíssimos e antigos biombos atribuídos a Kano Domi - “Desembarque de negociantes portugueses” — foi várias vezes a minha inspiração. As mercadorias que desenhei para uma das cenas, por exemplo, são uma interpretação bastante directa de um pormenor que tirei desses biombos.

Graficamente, e seguindo o tipo de simplificação que defini para as personagens, optei por dar o mesmo ar aos adereços. Assim, desenhei-os, usando também aqui as figuras planas gerais de cada elemento, preocupando-me com a boa leitura das silhuetas, sempre com atenção aos detalhes essenciais de cada forma, como é típico na estética japonesa. Tal como para as personagens, mantive os desencontros entre a linha e a cor para criar, também nestes elementos, os efeitos de transparência com os fundos dourados dos biombos e adicionar um sentido de movimento e luz.

Participar neste projecto fez-me apreciar ainda mais a cultura japonesa, mas também a história portuguesa no seu contacto com outras culturas.

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Orlando Ferreira

Orlando Ferreira @orlando.ferreira

Orlando Ferreira é natural de Alverca do Ribatejo, tendo feito os seus estudos superiores em Lisboa. É casado, pai e gosta de escrever. Desde 1990 é professor de Língua Portuguesa no Externato João Alberto Faria, em Arruda dos Vinhos. Tem implementado programas de intercâmbio escolar e coordenado publicações literárias com foco no Japão. O seu interesse nesta área desenvolveu-se mais a partir de 2007, depois de integrar o Tour Program for Secondary Educators, a convite da Japan Foundation. A oportunidade para conhecer melhor os laços entre os dois países veio ao encontro do seu compromisso pessoal e profissional de promover o conhecimento da língua portuguesa no mundo e o seu gosto pelo intercâmbio internacional entre os seus alunos. É presidente da Associação Rotas da Lusofonia, a qual fundou com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento de iniciativas de índole cultural dos países de expressão portuguesa e nos países com representação do ensino da língua portuguesa e/ou ligação a Portugal. Em 2011, numa visita de estudo a Tóquio para alunos do Clube de Jornalismo da escola onde lecionava, foram surpreendidos pelo Grande Terramoto de 11 de Março. Esse evento marcou-o profundamente e levou à organização de um evento de recolha de donativos e de livros para as crianças da região de Fukushima em colaboração com a ONG Soma Relief 311. Em Julho de 2017, é-lhe atribuída a Condecoração do Ministro dos Negócios Estrangeiros do Japão. Esta condecoração é uma distinção de prestígio concedida a cidadãos estrangeiros que têm contribuído grandemente na promoção do mútuo entendimento e dos laços de amizade entre o Japão e os outros países.

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