Jardim Tsuru-Kame, Konchi-in Quioto

Desenhadores Proeminentes de Jardins 2 - Kobori Enshu

Por Tomoko Kamishima   28/03/2015

A arte de jardinagem é uma arte a três dimensões. Quando caminhamos por um jardim, tocando nas árvores, cheirando as flores, e desfrutando-o de vários ângulos, todos os aspetos são um verdadeiro prazer. Mas quando olhamos para um jardim a partir de uma sala, é como ver um poster só que através de uma janela.

Os especialistas dizem que se pudesse ser descrito através de uma pintura, o Jardim Tsuru-Kame do Templo Konchi-in corresponderia a "Deuses do Vento e do Trovão" (originalmente pintado por Sotatsu Tawaraya) que foi criada praticamente no mesmo período histórico. Porquê? Um ponto chave é que ambos colocaram um grande espaço aberto entre dois assuntos importantes.

Rota

Passando pela entrada, caminhos de pedra levam-nos a um jardim exterior junto a um lago. Então somos levados diretamente ao santuário no interior do Tosho-gu, onde o cabelo de Tokugawa Ieyasu está guardado. Este Santuário Tosho-gu é um mausoléu onde as orações são oferecidas a Tokugawa Ieyasu (o primeiro Xógum do Xonugato Tokugawa) de uma forma muito semelhante ao grande Santuário Tosho-gu em Nikko. Aqui em Quioto, há degraus de pedra que descem até à Sala Hojo por trás do Tosho-gu. Chegamos então ao Jardim Tsuru-Kame, que se abre vastamente em primeiro plano.

Jardim Tsuru-kame

O jardim foi desenhado por Kobori Enshu (1579-1647) por volta de 1630, mas foi um talentoso jardineiro chamado Kentei que dirigiu a sua construção. Enshu planeou o jardim com minuciosos detalhes, e Kentei deu-lhe vida. Enshu queria exprimir a ideia de um barco e/ou oceano com a areia branca na frente do jardim. Visto de uma sala que fica em frente ao jardim, a maior parte do jardim de areia não dá para ver (por ser tão grande), e árvores podadas e um grupo de pequenas rochas são proeminentes. Estas árvores têm o propósito de mostrar as profundezas das montanhas e um profundo vale isolado. Uma grande pedra lisa no centro serve de rocha de adoração onde (em ocasiões especiais) as pessoas podem rezar no Santuário Tosho-gu para lá das árvores. Grandes grupos de pedras à direita representam uma garça (tsuru), e os que estão à direita simbolizam uma tartaruga (kame). Ambos os elementos simbolizam longevidade e felicidade. Além disso, Enshu usou a ideia de perspetiva num único ponto no jardim, um conceito que ele terá aprendido de sábios missionários europeus. Uma lanterna no meio do jardim tem o papel de atrair a visão. E os grandes grupos de rochas em ambos os lados, com conjuntos de rochas mais pequenas no meio, criam uma grande sensação de profundidade.

Kobori Enshu e a sua aproximação à jardinagem

Kobori Enshu nasceu em 1579 no seio de uma família samurai que servia o preeminente regente Toyotomi Hideyoshi. Aos 14 anos de idade, ele começou a praticar meditação Zen e a aprender cha-no-yu (o Caminho do Chá). Depois da morte de Hideyoshi, ele serviu Tokugawa Ieyasu e foi então nomeado especialista em construções públicas, incluindo planeamento de jardins. Trabalhou no Santuário Tosho-gu de Nikko, no Castelo Nijo-jo de Quioto, no Jardim Hojo de Nanzen-ji, e no Castelo Edo-jo, assim como noutras construções e jardins importantes para o Xogunato.

O senso estético de Enshu é geralmente expresso como kirei sabi, diferente do tradicional conceito de sabi (simples, calmo, profundo, moribundo...) O seu senso de beleza era brilhante, elegante, e colorido. Além disso, com base no seu conhecimento clássico de literatura japonesa e chinesa, ele colocou muitos dos elementos mais recentemente trazidos para o Japão de países estrangeiros nos seus arranjos. A essência criou uma harmonia perfeita no seu mundo original único.

"Quando nevar, coloque uma flor vermelha (de damasco) num vaso."

Basicamente, uma sala de chá tradicional é simples e escura. E no cha-no-yu, enquanto os convidados aguardam que o anfitrião entre, podem apreciar os adereços que adornam a pequena sala. O grande mestre de chá, Sen no Rikyu, não colocava nada num dia de neve, pois pensava que a neve por si só seria suficiente. Mas Enshu era diferente. Quando nevava, ele achava que uma flor vermelha seria uma luz cordial no coração dos seus convidados, que tinham vindo através de um frio caminho estreito para chegar à sala de chá sem cor.

Sobre esta série

Quioto foi a capital do Japão durante mais de 1000 anos (794-1867). É famosa pelos seus templos e jardins, que se separam em três tipos principais (apesar de alguns jardins conjugarem estilos). 1) Jardins secos usam rochas e areia para exprimir a água. São geralmente desenhados para serem apreciados a partir de uma sala. 2) Jardins de estilo excursão normalmente incluem um caminho em redor de um lago. Podemos desfrutar de diferentes vistas durante a caminhada. 3) Jardins de estilo abstrato são bastante modernos mas continuam a seguir algumas tradições de jardins.

O primeiro jardim em Quioto teve origem no Jardim Shinsen-en. Os jardins evoluíram por um longo período de tempo para os três estilos mencionados acima. Nesta série, gostaria de lhe apresentar alguns mestres de planeamento de jardins (jardineiros/arquitetos paisagísticos), e alguns dos deslumbrantes jardins japoneses que eles desenharam em Quioto.

1) Sacerdote Muso Soseki (1275-1351): Jardim Hojo de Tenryu-ji (Jardim de estilo excursão)

2) Kobori Enshu (1579-1647): Jardim Tsuru-Kame de Konchi-in (Jardim seco)

3) Ishikawa Jozan (1583-1672): Quinta Shisen-do (Jardim seco/Jardim de estilo excursão)

4) Ueji VII (1860-1933): Quinta Murin-an (Jardim de estilo excursão)

5) Shigemori Mirei (1896-1975): Jardim Hojo de Tofuku-ji (Jardim de estilo abstrato)

Se gostou desta série, também poderá gostar da minha outra série "Desfrute destes templos com belos corredores exteriores". Esta série apresenta quatro atraentes corredores e jardins de templos em Quioto.

Escrito por Tomoko Kamishima
Membro da JapanTravel
Traduzido por Andre Moreira

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